quinta-feira, 9 de junho de 2016

A energia nazista no Rock and Roll

BUF representa a União Britânica do Fascismo, um partido formado em 1932 por Osward Mosley. Ele pegou como referência ideológica o fascista Mussolini e as ideias de Hitler nos anos trinta. É repugnante? Sim! Mas a bandeira do partido era muito legal, um flash dentro de um círculo. Não se sabe se conscientemente ou inconscientemente foi adotada pelo grupo americano Grateful Dead, tornando, a partir daí, um símbolo comum em camisetas de bandas, patch de jaquetas, etc. Ainda que o exemplo mais notório seja David Bowie e a capa do disco Aladdin Sane de 1973 que pintou o símbolo na cara, tornando uma imagem icônica, depois de sua morte milhares de fãs colocaram esta imagem em seu avatar nas redes sociais. Crianças, adultos e jovens pintaram a cara imitando o ídolo. O símbolo fascista deu a volta no mundo graças ao Rock and Roll e a pergunta que cabe fazer é: “o símbolo estava vazio de conteúdo?”.
Jaime Gonzalo é um dos fundadores da revista Route 66, agora dedicada a investigar a contracultura e a cultura popular em volumes densos como a série Poder Freak. Em sua mais recente edição, publicou "Mercancía del Horror: fascismo e nazismo na cultura pop (publicado pela Libros Crudos) onde analisou como o Rock and Roll sobreviveu durante muitos anos do imaginário nacional-socialista em um jogo de sedução entre a provocação e o morbidez a fim de referendar este estilo de música. No entanto, é preciso levar a sério? Segundo Gonzalo, ao qual nós mandamos algumas perguntas, melhor não: "Naturalmente que não deve-se levar a sério, como tantas outras coisas na vida, começando por si mesmo". O livro mostra vários exemplos, desde escritores criando romances em campos de concentração onde os prisioneiros são estuprados e desumanizados até o jewcore e essas bandas que ridicularizam o hardcore neonazi e se permitem fazer piadas com o Holocausto. "Isso é um paradoxo hebraico constituindo uma maneira saudável de reflexão".
Isso não retira que no caso do Rock and Roll essa tentação tem estado presente desde os primeiros dias, desde Chuck Berry cantando "Hail, Hail, rock and roll" em 1957, até os dias atuais, exemplos como os eslovenos do Laibach, nome que os nazistas deram à Liubliana quando a ocuparam na Segunda Guerra Mundial, cujos adereços incluem todos os complementos do III Reich, ainda que eles digam que: "São tão nazistas quanto Hitler era pintor", e há que entender que surgiram num contexto de um país comunista que sofria privação de liberdade e proibia qualquer tipo de apologia ao fascismo. 
          Cada um tem uma desculpa, Chuck Berry também daria uma explicação, mas algo é certo, em mais de cinquenta anos de cultura rock as referências nunca pararam, desde o inicio. Nos Estados Unidos existe um fascínio pela simbologia fascista que surgiu imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial. Foram os próprios veteranos de guerra que trouxeram estas parafernálias roubadas do inimigo. Na Califórnia, anterior a revolução hippie e ao verão do amor, também apareceram os nazi surfs e punk surfers.
O autor explica: "Na cultura surf californiana dos anos sessenta os grupos urbanos são o equivalente aos surfistas adolescentes com atitudes intimidatórias. Suas vestimentas são cruzes de ferro e capacetes da Wehrmacht. Eles são os primeiros a usar estes dispositivos de dissuasão, feito antes por veteranos de guerra em carros. Nesse sentido, é interessante que o designer Ed Roth comece a comercializar bugigangas nazi surf em uma variedade de produtos de plástico, pingentes, medalhas, camisas, etc. Dirigido agora não só para o mercado adolescente, mas também para o público infantil".
Pegando isto como ponto de partida, o livro estuda o fetichismo da simbologia nazi e fascista da cultura pop e rock. Manifestações sem alinhamento com nenhuma ideologia per si, mas que deixaram rastros de encontros com o totalitarismo. Por exemplo, Brian Jones, primeiro guitarrista do Rolling Stones, deu um passeio em Munique, com Anita Pallenberg com um terno da Waffen SS alugado, mais adiante fez uma sessão fotográfica na revista dinamarquesa Borge em 1966 em que apareceu vestido com o mesmo uniforme esmagando uma boneca com a bota. Imagem, posteriormente, que apareceria na capa de Obediencia do grupo Gabinet Caligari. Também Keith Richards tinha essa debilidade. Apareceu na televisão no Ed Sullivan Show com uma jaqueta das divisões Panzer tocando "Have your Seen Your Mother, Baby, Standing in the Shadow?".  Outro, Keith Moon, deixou ser fotografado caracterizado como Hitler. Em seu caso com certa paródia porque posava junto com Viv Stanshall, da Bonzo Dog Dah Band, disfarçado de Himmler se fazendo de ventríloquo com um mini-Führer e o baterista do The Who sorrindo constrangido.
Com o fim da Era Hippie, Iggy & The Stooges faziam alusões frequentes. Ron Asheton, guitarrista, aparecia frequentemente com a cruz de ferro no pescoço como depois Lemmy, no Motorhead. A bandeira com a suástica era colocada várias vezes como pano de fundo. Uma das fotos mais impactantes é Ron vestido de nazi, incluindo bracelete, degolando Iggy ensanguentado. Mas eram simpáticas caracterizações, sem mais, explicou o guitarrista: "Não era nazista, a bandeira simplesmente formava parte da minha coleção. Tive noivas judias e colegas negros, não era de forma alguma promover ou justificar o nazismo. Eu só curtia os uniformes". Seu trabalho posterior, após o fim dos Stooges, foi o The New Order, tirado do Neuordnung hitlerista. Segundo Gonzalo, foi uma decisão mais contraproducente que qualquer outra coisa: "Aquilo foi uma lição de como não conseguir um contrato discográfico em uma indústria gerida principalmente por judeus".
New York Dolls, precursores tanto do Glam quanto do punk, também tinham Johnny Thunder vestindo braceletes com suástica em suas fotografias oficiais. No auge da carreira, o infame Malcolm McLaren ensaiou com eles propondo uma estética provocadora para serem proibidos nos EUA, a ideia era se vestir de vermelho com a foice e o martelo dentro de uma estrela gigante como cenário de fundo. Era 1975, época da Guerra Fria, e o EUA fez pouco caso, mas ali teve um duplo coquetel com as estéticas autoritárias.
No Hard Rock a coisa seguia os mesmos roteiros. Blue Öyster Cult, em seu melhor LP, Secret Teatries, de 1974, antes de virar AOR, aparecia na capa do disco com um ME-262, o primeiro avião de combate desenvolvido no III Reich pela companhia Messerschmitt. O guitarrista Eric Bloom, talvez mais célebre atualmente pelo sketch no Saturday Night Live de "Needs more cowbell" que por Blue Öyster Cult, sairia na capa do disco segurando em vários pastores alemães. Ele gostava de aviação? E de cachorro? Era tudo uma coincidência? Seja como for, as lojas de discos na Alemanha se negaram a vender este LP.
Nos anos setenta isto seria interminável. Ian Hunter do Mott the Hoople, tinha uma cruz de malta em forma de guitarra. O Kiss, por mais judeu que fosse Gene Simmons, fizeram turnê no planeta inteiro com o logotipo da banda com as letras SS com a mesma tipografia das SS nazistas. Disseram que na verdade eram raios, mas na Alemanha, desde 1980, seus discos são comercializados com um logo neutralizado com dois S que parecem dois Z invertidos.
Na cena New Wave, o grupo mais paradigmático do movimento, Blondie, levava o nome do cachorro de Hitler. Existem histórias que o autor conta que Debbie Harry dormia com seu namorado Chris Stein, guitarrista e, além disso, judeu, com uma bandeira do Terceiro Reich pendurada no teto. Dee Dee dos Ramones colecionou toda sua vida símbolos nazistas e relíquias de guerra. "Eu reuni tanta coisa que eu comecei a negociar estes objetos. Ficava fascinado com símbolos nazistas, ficava encantando de encontrarem estes objetos entre escombros. Tinham muito glamour. Eram preciosos. Meus pais ficavam putos, uma vez encontrei uma espada da Luttwaffe em uma loja e era linda. Quando cheguei em casa e meu pai viu ficou revoltado e me disse: "Você tem noção do quanto de compatriotas morreram por causa desta espada?”E desse colecionismo, desta paixão mórbida, colaram ironicamente nas letras do Ramones em canções como "Today your love, tomorrow the world" (I´m a Nazi schatze / Y´know I fight for fatherland) ou "Commando" (First rule is: the laws of Germany / second rule is: be nice to mommy / third rule is: dont talk to commies / fourth rule is: eat kosher salamis).
Percorrendo a cena nova-iorquina, teve um caso que levou a simbologia nazi até a hilaridade, foram os Dead Boys. O vocalista Stiv Bators fartou-se de levar suásticas em camisetas e jaquetas. Compartilhava medalhas nazistas com seu público. O bumbo da bateria era decorada com siglas da SS e Johnny Blitz também usava suásticas em toda a roupa. E isso saiu muito caro para ele. Pois no livro Mate-me, por favor! Uma crônica do cenário de Nova Iorque, conta que ele foi esfaqueado por alguns porto-riquenhos. "Ele tinha cinco cortes em volta do coração. Quando eu ouvi as sirenes da polícia e entrei no taxi os policiais vieram ver Johnny com vários órgãos para fora. Acredito que não deveriam tocar nele até chegar a ambulância, mas estavam tão chocados que recolheram ele do chão e colocaram no carro da patrulha, levando-o para Bellevue. Se tivessem esperado a ambulância Johny estaria morto. Os médicos começaram a atende-lo imediatamente, mas quando o cirurgião viu a suástica em Johnny parou, ele era judeu. Um médico negro disse: "Não podemos deixa-lo assim. Este médico negro o operou durante oito horas e salvou sua vida".
Poderíamos ficar falando disso até cansar. O trabalho de Jaime Gonzalo vai até grupos como Motley Crüe que colocaram na agenda o "nazi wednesday" para andarem maquiados de nazistas pela Sunset Boulevard, antes de entrar e valorar outro tipo de fascismo, este que acrescenta componentes raciais nos Estados Unidos e que cristalizou-se por meio de grupos de hardcore como Agnostic Front, mas no tocante ao rock and roll fútil e hedonista, porquê a obsessão?
No transcorrer da obra são dadas várias respostas. O essencial é o relativo tabu do período pós-guerra. Para as novas gerações o nazismo significava uma forma de mal absoluto, quando saíam em filmes eram personagens que se confundiam com ficções lúdicas da época, estavam também em jogos, como soldadinhos, para entreter crianças. Chegou um momento que a comunhão entre uma estética singular e o universo filofascista era até natural. "Provocar é também consubstancial ao rock e ao período de nossa vida em que encontramos mais lógica - a juventude. Se o nazismo se baseia em grande parte em sua capacidade de marketing, como faz a democracia, nada mais natural para alguém que deseja chamar atenção usar esta propaganda no sentido inverso" diz o autor.
Um caso paradigmático é o do grupo espanhol Ilegales analisado no livro Mercancía del Horror. Quando compuseram a canção bucólica e evocativa "Heil Hitler!", viram-se imersos em uma grande polêmica como era de esperar, mas seu significado era meramente geracional. Libertador ou emancipador, inclusive. Vejamos a letra:
Hippies,
no me gustan los hippies.
Hippies,
no me gustan los hippies.
Hay una cosa que se llama jabón
mata los piojos y te quita el olor
¡Heil Hitler!
Nazis,
simpáticos los nazis.
Nazis,
conozco muchos nazis.
En la noche alemana,
los judíos rezan
¡Heil Hitler!
Rockers,
que pasa con los rockers.
Rockers,
yo soy un rocker.
Diez años de lucha solitaria,
son suficientes para reventar.
E agora a explicação de Jorge Martínez no programa de rádio "Grande Rock" em 2010: "Tivemos muitos problemas com esta música. Por isso fizemos a canção, para ter problemas. Este medo de tabus com o nazismo ou este medo de contradizer os hippies era o que tínhamos que enfrentar... Os hippies tornaram-se uma classe repressiva. O movimento massificou-se e muitos ocupavam postos de poder em partidos políticos ou algo parecido e eram verdadeiramente uma muralha contra qualquer novidade... E então eu disse, vamos mandar todos estes filhos da puta tomar no cu e tocamos "Heil Hitler", neste momento usei um cap nazista e fizemos saudações nazistas, queriam nos matar... No dia seguinte, no estúdio de gravação, o telefone não parava de tocar a manhã inteira, estavam nos oferecendo doze contratos e cada um tinha um cachê maior. A contra publicidade funciona".
Não obstante, há um sentindo poderoso que transcende estes atos. Como declarou Bowie na revista Playboy em 1976 dizendo que Hitler foi um "teen idol" da sua época. Olhando suas fotos notam-se ele rodeado de adolescentes, estes teriam a mesma atitude e comportamento histérico dos fãs de Beatles. O Duque foi assertivo sem dúvidas ou rodeios: "Hitler fui um dos primeiros rock stars. Olhe os jornais da época e repare como se movia. Creio que tão bom quanto Jagger. É assustador vê-lo quando aparecia como se portava em público. Não era um político, era um artista midiático. Usou política e teatro para criar um governo que controlou durante 12 anos. O mundo não voltará a ver nada parecido nunca mais. Manipulou um país inteiro... As pessoas não são muito espertas, ok? Dizem que querem liberdade, mas quando oferecem a oportunidade esquecem de Nietzsche e escolhem Hitler porque Hitler desfilará e discursará, e a música e as luzes surgirão nos momentos estratégicos".
Em um artigo sobre Eva Braun na magazine Jot Down número 14, mostra que o Führer tinha que lidar com mulheres que chegavam em sua casa nuas com jaquetas militares com a intenção que ele as desflorasse. Jogavam roupas íntimas quando ele discursava e houve casos que jovens jogavam-se na frente do carro em que ele estava para serem socorridas. Hitler falou de pátria e identidade nacional, coisas bonitas para um público nacionalista da época. Alemanha para os Alemães basicamente e outras coisas como difundir fotografias e discursos apaixonados. O x da questão é notar que houve um esquema muito semelhante nos anos cinquenta quando os Estados Unidos criou a indústria do rock, um negócio orientado a ganhar dinheiro em cima da juventude que pela primeira vez tinha capacidade de gastar vendo líderes carismáticos que em detrimento da pátria cantavam o novo bem absoluto: o amor romântico e a diversão.
Sobre a própria natureza do fanatismo por Rock and Roll, Gonzalo também assinala em seu livro que encontra similaridades com o comportamento de fãs de rock e as massas que desejaram seguir por vias totalitárias. Primeiro, pelo elitismo, componente inalienável do rock, detalhando: "A comunidade consumidora de cultura rock é como essas organizações que dizem dispor de uma chave da sabedoria, vetada para os restos dos mortais. Uma elite superior com seus dogmas, símbolos e cerimônias, cujo principal objetivo é elevar o indivíduo acima das massas, do populacho. Os nazis foram os primeiros rock stars, os rocks star foram os segundos nazis".
Para apoiar este ponto de vista Gonzalo recorre ao pensamento de Wilhelm Reich. O rock seria uma segunda "família para o fã. Segundo Reich a família era a fábrica de ideologia e dos pensamentos reacionários. Se neste núcleo estão os solitários, os incompreendidos, os rebeldes e os dissonantes, ou seja, os supostamente antissociais, este núcleo funcionaria como uma rede para evitar a "insignificância social", "acabar submerso em uma classe inferior". Foi o mesmo mecanismo que o fascismo usou para seduzir seus anfitriões. O autor deixa claro também por email: “O rock projeta autoridade, algo a que submeter-se, como a religião, muitos têm encontrado nesta vassalagem um sentido para sua existência”. Que rock e nazismo se fundem não é tão antinatural afinal". Conclui-se que sempre voltamos ao mesmo: quando o homem não crê em nada ele passa muito frio.



Este artigo foi publicado originalmente na Jot Down Magazine e traduzido para este blogue. Mais info: http://www.libroscrudos.com/

Um comentário:

  1. Muito bom texto, Antonio. Rock é coisa de gente alienada, sem dúvida.

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